exercícios de ficção

junho 10, 2009

A Pousada Acidental – Parte 2

Filed under: Conto — Marcelo Lopes @ 10:21 pm

Como o título do post diz, este é um conto dividido em partes – três, no total. Se você não leu a primeira parte, clique aqui.

É inútil tentar me lembrar dos seus nomes e já nem sei dizer se fui eu quem os esqueci ou se o próprio Carlos teria dificuldade, hoje, em recordá-los. Mesmo um tanto envergonhado por esta lacuna, admito que suas descrições são bem mais acuradas e detalhadas do que as minhas; certamente o homem que o esperava na varanda era bem mais interessante do que apenas um cabide para o macacão. Ainda mais certo é que a mulher que cuidava das plantas mereceria uma descrição menos grosseira, mas prefiro não tentar me equiparar às suas habilidades. Obviamente, chamarei os habitantes da casa da forma como me lembro deles. O homem, portanto, é o filho, que se ofereceu para carregar a mochila até o quarto que separaram com cuidado para os vistantes. Notou a cama e os lençóis esticados, a televisão antiga (talvez valvulada) em cima da cômoda de mogno, o piso de taco tão limpo e brilhante que deve ter sido preservado debaixo de um carpete por anos até ser recuperado e sintecado. Ainda mais alto, na estante, está um galeão detalhadíssimo, de madeira lustrosa e velas sujas; Carlos esperou pelo clichê de ver os tecidos balançando até perceber que a janela estava fechada – mais tarde, seria aberta com muita dificuldade pelo filho.

Fui eu quem fiz.

Parabéns, Carlos respondeu, quase surpreso pela afirmação.

Tem mais. Quando quiser, pode ir lá ver.

No final da tarde, após um lanche resumido a (deliciosos) pães de queijo e um café rançoso de sabor endurecido, subiu ao quarto do filho, que havia trocado de roupa: no lugar do macacão vestia uma camiseta branca de mangas curtíssimas, uma frase em inglês vermelho impressa no peito, estilete pendurado nos bolsos da calça e chinelos havaianas verdes. Naqueles trajes tão desesperadamente jovais pareceu-lhe ainda mais velho com os cabelos lisos e brancos caindo sobre as orelhas e os dedos envoltos em manchas escuras e irremediáveis. Falou-lhe de esquadras e galeões, fragatas, batalhas espanholas, da frota mercante dos fenícios e a ferocidade dos saqueadores marítimos, mapas antigos e quase desconhecidos que falavam da costa da América do Sul centenas de anos antes de Colombo ou Cabral. De seus projetos delicados, belíssimos e abandonados; naquele faltava o leme, no outro as velas, um deteriorava-se num balde de plástico mofado, peças esculpidas com cuidado espalhadas pela gigantesca mesa, esperando inúteis a oportunidade de pertencer a mais um navio inconcluso. E havia um entusiasmo legítimo, embora pouco contagiante, em suas frases e histórias, todas invariavelmente desprovidas de conclusões.

Depois que o filho conseguiu abrir a janela do quarto, Carlos percebeu que a irmã mais nova usava um vestido formado por outros e que aquilo não o tornava feio, mas elegante e incomum. No dia seguinte, antes da sessão de slides, conversaria com ela, que se empenharia em mostrar o minúsculo quarto que apelidava de ateliê – a careta desengonçada que ela fazia a cada vez que pronunciava o termo o encantava; o humor autodepreciativo sempre conseguia encontrar nele um admirador. Notaria uma pilha de tecidos, a maioria bem antigos, alguns nitidamente roídos por ratos que ela juraria terem sido exterminados ainda no tempo que o pai e a mãe estiveram vivos. E os cabides, enfiados em todo canto e fresta das estantes e armários, todos servindo de repouso para vestidos longos e solenes. Nos manequins sem cabeça ou braços, levíssimas peças coloridas, tornadas foscas pela janela definitivamente fechada com duas tábuas grossas e sólidas.

Faço os vestidos da minha cabeça, ela diria, depois de um tempo eu desmancho e recosturo de outro jeito.

Quase não existe mais tecido para vender lá na cidade, então eu tenho trabalho o tempo todo fazendo isso, o que é bom.

Exceto aquele, que eu gosto muito e não desmancho.

Nestes momentos, disse-me Carlos, invejo a capacidade quase instintiva das mulheres em identificar as partes componentes de uma roupa. Não soube me dizer se o que adornava a peça preferida da irmã mais nova eram miçangas, estrasses ou finíssimos cristais cuja manipulação desastrada certamente os levaria a destruição. Foi capaz de dizer apenas que ficara impressionado com a assimetria perfeita, o bom gosto dos detalhes, a generosidade sensual da fenda das costas, as alças adornadas por tecidos diversos unidos num padrão delicado de cores. O vestido pendia de um cabide pregado no teto baixo como um troféu, girando lentamente pouco acima da altura dos olhos, e provocava um sorriso suave na irmã mais nova toda vez que o mencionava.

Às vezes, a irmã mais velha vai na cidade e consegue vender um vestido. Ela sempre me elogia.

E ela, que Carlos não via desde o desencontro na estufa, veio chamar à porta do seu quarto aberta, na segunda tarde de sua estadia, enquanto ele tentava se entreter com um livro já lido e esquecido na mala por engano.

Quer saber como eram as coisas aqui antes?

junho 5, 2009

A Pousada Acidental – Parte 1

Filed under: Conto — Marcelo Lopes @ 2:41 am

O conto abaixo é uma recriação ficcional do encontro narrado pelo escritor W.G. Sebald no seu livro Os Anéis de Saturno, do qual falei no meu blog Universo Tangente. Obviamente, desloquei a ação e introduzi outros elementos. O que se segue não passa de um mero exercício de criação, em que tento tornar minha, por assim dizer, uma história contada por outro autor.

Talvez a versão que você venha a ler não seja a definitiva, pois vou revisá-la um pouco ainda.

Estou dividindo em partes para que não resulte num texto muito grande para um único post. Esta é a primeira parte.

Tentarei contar da melhor forma possível, pois já se passou muito tempo desde que ele me falou aquela viagem; e talvez eu não devesse mesmo publicar as razões da sua ausência naqueles meses. Basta mencionar que passavam, os dois, Carlos e Juliana, por um período bastante complicado em seu relacionamento, quando todos os gestos e palavras parecem envoltos por um desespero delicado, prestes a se transformar em tragédia e distância. E se digo estas vulgaridades é porque – você já deve ter desconfiado – sei muito bem do que se trata. Então, sua viagem àqueles lugares tão distantes não me surpreendeu.

Procurava um lugar para ficar por uma ou duas noites, já havia caminhado por todo o dia – sol e pouco vento, nenhuma folha das árvores de troncos grossos e abundantes no chão – com uma mochila pesada às costas. Após um morro que parecia todo formado por pedras arredondadas e quase soltas, descobriu um cidade que por pouco não poderia ser descrita como deserta. Uma rua apenas, casas de janelas fechadas e uma loja que aparentemente servia de padaria, mercearia, rodoviária, açougue e farmácia. Gostaria de acreditar que o lugar, empoeirado e pequeno, também funcionasse com um hotel.

O dono da loja foi solícito, embora sua educação lhe pareceu um fardo que tinha de suportar, como se a qualquer momento fosse abandonar aquele viajante no meio da estrada e cuidaria de sua antiquíssima picape antes que o veículo barulhento decidisse abandonar a ambos. Havia apenas um pequeno cartaz de cartolina amassada e envelhecida pendurada do lado de dentro da vitrine – Alugamos quartos para visitantes – e o telefone. O dono disse que havia pregado aquilo por acaso, após (não soube dizer quantos) anos dentro da gaveta. Deixou Carlos à frente de uma porteira; a casa não parecia longe ou grande, embora anexa a uma capela alta. À medida em que ia se tornando mais próxima, a casa anexa se transformou; o que parecia a pintura desgastada em branco encardido mostrava-se um parede de vidro sujo, um templo circular de onde erguia-se uma abóbada que se pretendia protegida pelo esqueleto enferrujado de finíssimas ligas metálicas.

Carlos chegou bem perto porque não conseguia distinguir sombras mais baixas, praticamente imóveis, de uma maior (por alguma razão estranha lembrou-lhe as costas de um hipopótamo) agitando-se em espasmos regulares e de curtíssima duração. Quase enconstou o rosto no vidro no momento em que a sombra ergueu-se rapidamente, embora sem qualquer indicação de que havia se assustado. Seu movimento era fluido e leve. Ambos começaram a andar e ele pensou por um momento que, para aquela pessoa dentro da estufa, ele é quem parecia um vulto que havia aumentado de tamanho e agora caminhava ao seu lado. Pararam ao mesmo tempo e antes da porta aberta. Talvez a sombra de dentro tivesse receio de que fosse um bandido vigiando-a do jardim ou alguém que a incomodaria perguntando pela direção de uma rua desconhecida. Gosto de imaginar que o vulto interno tenha sentido, por um intervalo mínimo, medo de que sua imagem de alguma forma não corresponderia à fantasia alimentada pela existência da parede fosca.

É o senhor Carlos?

Um homem magro enfiado em um macacão jeans dois números maiores do que seu corpo discreto acenou da porta da casa principal. Carlos sorriu, o que pareceu servir como um sim, já que o homem de macacão fez um sinal com a mão esquerda para que se aproximasse da varanda. Tirou a mochila dos ombros, sentindo-se um soldado fatigado a quem a ordem de ficar a vontade jamais foi tão desejada e cumprida com aquele zelo. Andou por um caminho de terra batida até a porta, percebendo que a porta aberta da estufa deixou que observasse, afinal: uma mulher, ou uma senhora seria a forma mais correta de tratá-la, com um chapéu de palha desfiada entre as orelhas, sob um vestido rosado, muito provavelmente poído, balançando com leveza uma tesoura imensa nas mãos unidas.

Continua: A Pousada Acidental – Parte 2

junho 3, 2009

As melhores pessoas que conheço

Filed under: Crônica — Marcelo Lopes @ 3:51 pm

Inspirado por este post.

Algumas das melhores pessoas que conheço não lêem os mesmos livros que eu, não gostam dos mesmos filmes que eu e ouvem músicas que eu jamais escutaria por escolha própria. Algumas delas não acreditam nas mesmas coisas que eu, e jamais defenderiam os meus valores e propostas. Confesso até que de umas poucas sou capaz de discordar radical e intransigentemente. Algumas das pessoas mais queridas de minha existência crêem num Deus diferente do meu (como se Ele pudesse pertencer a alguém) ou acreditam em outro Deus ou até deuses; além, claro, daqueles que juram que não há nada além desta terra e do tempo finito de nossas vidas tão desagradavelmente breves. Outras desprezam solenemente os alimentos que tanto bem me fazem, as bebidas que estoco com a promessa de um leve e ocasional prazer, e há até quem deteste chocolate e adore Fanta Uva. Conheço pessoas incríveis que se interessam por assuntos que me fariam bocejar numa cama de faquir, que gostam de ler sobre celebridades inúteis, assistir a finais de futebol e jogar cartas com a animação de uma criança. Alguns não acham a Monica Belucci bonita nem gostariam de envelhecer classudos como o Sean Connery. Algumas das melhores pessoas que conheço e com quem gosto de passar agradáveis horas de boa conversa, risos e suave companhia simplesmente não compartilham seus preconceitos, não acham que são mais interessantes do que eu porque leram um obscuro autor do século XIII de quem nem o Humberto Eco ouviu falar ou porque gostam de músicas de um cantor que os críticos incensaram como a nova promessa da MPB. Aliás, a maioria deles sequer se preocupa com isso. Entregam-se com indisfarçável prazer a apreciação da amizade, apenas e tão necessária.

E talvez por isso mesmo sejam também alguns dos amigos mais interessantes que tenho.

maio 28, 2009

maio 22, 2009

Egoísmo

Filed under: Crônica — Marcelo Lopes @ 1:25 am

Sempre me causou assombro a capacidade de muitos de meus conhecidos em narrar os mais ordinários acontecimentos por um tempo muitas vezes superior ao ocorrido; tratam do assunto com gravidade exagerada, alguns deles oferecem gestos largos, outros palavras cheias de vigor e os demais – bem poucos, mas certamente os menos suportáveis – uma fúria quase teatral. São capazes de relembrar cada frase, e a entonação de todas elas, daqueles a quem juram ter confrontado e irremediavelmente vencido. São gigantescos e amorosos, magnânimos e generosos, incapazes de cair em qualquer golpe, mesmo se aplicado pelo mais ardiloso e inteligente dos enganadores.

Não me identifico com eles. Minhas histórias pessoais são pequenas e desinteressantes; podem ser resumidas numa lufada de vento; não, de brisa. Também são desimportantes, podem ser carregadas para longe e quase nada no mundo seria afetado pela sua ausência – certamente tanto quanto pela sua existência. Não vejo razão alguma para compartilhá-las; se o faço, o que ocorre com raridade, é porque acredito que posso falar de algo maior e mais interessante ou porque acredito que o fato em si seja curioso, por qualquer razão, cômico, ridículo ou trágico. Tento, com sinceridade, ocupar o menor tempo possível de meus pares com estas narrativas para não os chatear. É uma forma sincera e suave de egoísmo. Ao invés de oferecer as minhas histórias simples e mundanas, substituo-as por diálogos supostamente melhores, mais relevantes e menos irritantes e torno-me idêntico a todo mundo, afinal, acreditando que sou melhor do que a realidade. O que não deixa de ser reconfortante e estranhamente natural.

abril 4, 2009

Remetente

Filed under: Conto — Marcelo Lopes @ 6:01 am

Imagino o que fez com o livro que lhe dei naquele dia. Saberá apenas que é meu livro preferido e que desejei estender a admiração que tenho por ele a você – não revelarei o título aqui – , esta bobagem que alguns temos de querer compartilhar uns prazeres íntimos que dizem quase nada para outros. Você o jogou no fundo de um baú com suas bonecas sem braços e pernas; derramou café em sua primeira página, logo acima da dedicatória que escrevi com desleixo; ou a retirou com medo de que, ao vendê-lo para o sebo da esquina de sua rua, pudesse ser reconhecido por mim ou por alguém que saiba de minha letra; o colocou na estante, junto aos que jamais leu ou leria, inclusive àqueles nunca folheados, ao lado de alguns pobres coitados sequer abertos uma única vez.

Pergunto por ele – de forma simples, sem citar nenhuma passagem, um misto de apreensão e desprezo – ; você me responderá, com toda a sinceridade, que gostou muito.

outubro 2, 2008

Mais um blog?

Filed under: Uncategorized — Marcelo Lopes @ 2:19 am

A resposta está ali ao lado, na página O que é isso aqui?.

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