exercícios de ficção

junho 3, 2009

As melhores pessoas que conheço

Filed under: Crônica — Marcelo Lopes @ 3:51 pm

Inspirado por este post.

Algumas das melhores pessoas que conheço não lêem os mesmos livros que eu, não gostam dos mesmos filmes que eu e ouvem músicas que eu jamais escutaria por escolha própria. Algumas delas não acreditam nas mesmas coisas que eu, e jamais defenderiam os meus valores e propostas. Confesso até que de umas poucas sou capaz de discordar radical e intransigentemente. Algumas das pessoas mais queridas de minha existência crêem num Deus diferente do meu (como se Ele pudesse pertencer a alguém) ou acreditam em outro Deus ou até deuses; além, claro, daqueles que juram que não há nada além desta terra e do tempo finito de nossas vidas tão desagradavelmente breves. Outras desprezam solenemente os alimentos que tanto bem me fazem, as bebidas que estoco com a promessa de um leve e ocasional prazer, e há até quem deteste chocolate e adore Fanta Uva. Conheço pessoas incríveis que se interessam por assuntos que me fariam bocejar numa cama de faquir, que gostam de ler sobre celebridades inúteis, assistir a finais de futebol e jogar cartas com a animação de uma criança. Alguns não acham a Monica Belucci bonita nem gostariam de envelhecer classudos como o Sean Connery. Algumas das melhores pessoas que conheço e com quem gosto de passar agradáveis horas de boa conversa, risos e suave companhia simplesmente não compartilham seus preconceitos, não acham que são mais interessantes do que eu porque leram um obscuro autor do século XIII de quem nem o Humberto Eco ouviu falar ou porque gostam de músicas de um cantor que os críticos incensaram como a nova promessa da MPB. Aliás, a maioria deles sequer se preocupa com isso. Entregam-se com indisfarçável prazer a apreciação da amizade, apenas e tão necessária.

E talvez por isso mesmo sejam também alguns dos amigos mais interessantes que tenho.

maio 22, 2009

Egoísmo

Filed under: Crônica — Marcelo Lopes @ 1:25 am

Sempre me causou assombro a capacidade de muitos de meus conhecidos em narrar os mais ordinários acontecimentos por um tempo muitas vezes superior ao ocorrido; tratam do assunto com gravidade exagerada, alguns deles oferecem gestos largos, outros palavras cheias de vigor e os demais – bem poucos, mas certamente os menos suportáveis – uma fúria quase teatral. São capazes de relembrar cada frase, e a entonação de todas elas, daqueles a quem juram ter confrontado e irremediavelmente vencido. São gigantescos e amorosos, magnânimos e generosos, incapazes de cair em qualquer golpe, mesmo se aplicado pelo mais ardiloso e inteligente dos enganadores.

Não me identifico com eles. Minhas histórias pessoais são pequenas e desinteressantes; podem ser resumidas numa lufada de vento; não, de brisa. Também são desimportantes, podem ser carregadas para longe e quase nada no mundo seria afetado pela sua ausência – certamente tanto quanto pela sua existência. Não vejo razão alguma para compartilhá-las; se o faço, o que ocorre com raridade, é porque acredito que posso falar de algo maior e mais interessante ou porque acredito que o fato em si seja curioso, por qualquer razão, cômico, ridículo ou trágico. Tento, com sinceridade, ocupar o menor tempo possível de meus pares com estas narrativas para não os chatear. É uma forma sincera e suave de egoísmo. Ao invés de oferecer as minhas histórias simples e mundanas, substituo-as por diálogos supostamente melhores, mais relevantes e menos irritantes e torno-me idêntico a todo mundo, afinal, acreditando que sou melhor do que a realidade. O que não deixa de ser reconfortante e estranhamente natural.

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