Sempre me causou assombro a capacidade de muitos de meus conhecidos em narrar os mais ordinários acontecimentos por um tempo muitas vezes superior ao ocorrido; tratam do assunto com gravidade exagerada, alguns deles oferecem gestos largos, outros palavras cheias de vigor e os demais – bem poucos, mas certamente os menos suportáveis – uma fúria quase teatral. São capazes de relembrar cada frase, e a entonação de todas elas, daqueles a quem juram ter confrontado e irremediavelmente vencido. São gigantescos e amorosos, magnânimos e generosos, incapazes de cair em qualquer golpe, mesmo se aplicado pelo mais ardiloso e inteligente dos enganadores.
Não me identifico com eles. Minhas histórias pessoais são pequenas e desinteressantes; podem ser resumidas numa lufada de vento; não, de brisa. Também são desimportantes, podem ser carregadas para longe e quase nada no mundo seria afetado pela sua ausência – certamente tanto quanto pela sua existência. Não vejo razão alguma para compartilhá-las; se o faço, o que ocorre com raridade, é porque acredito que posso falar de algo maior e mais interessante ou porque acredito que o fato em si seja curioso, por qualquer razão, cômico, ridículo ou trágico. Tento, com sinceridade, ocupar o menor tempo possível de meus pares com estas narrativas para não os chatear. É uma forma sincera e suave de egoísmo. Ao invés de oferecer as minhas histórias simples e mundanas, substituo-as por diálogos supostamente melhores, mais relevantes e menos irritantes e torno-me idêntico a todo mundo, afinal, acreditando que sou melhor do que a realidade. O que não deixa de ser reconfortante e estranhamente natural.