Como o título do post diz, este é um conto dividido em partes – três, no total. Se você não leu a primeira parte, clique aqui.
É inútil tentar me lembrar dos seus nomes e já nem sei dizer se fui eu quem os esqueci ou se o próprio Carlos teria dificuldade, hoje, em recordá-los. Mesmo um tanto envergonhado por esta lacuna, admito que suas descrições são bem mais acuradas e detalhadas do que as minhas; certamente o homem que o esperava na varanda era bem mais interessante do que apenas um cabide para o macacão. Ainda mais certo é que a mulher que cuidava das plantas mereceria uma descrição menos grosseira, mas prefiro não tentar me equiparar às suas habilidades. Obviamente, chamarei os habitantes da casa da forma como me lembro deles. O homem, portanto, é o filho, que se ofereceu para carregar a mochila até o quarto que separaram com cuidado para os vistantes. Notou a cama e os lençóis esticados, a televisão antiga (talvez valvulada) em cima da cômoda de mogno, o piso de taco tão limpo e brilhante que deve ter sido preservado debaixo de um carpete por anos até ser recuperado e sintecado. Ainda mais alto, na estante, está um galeão detalhadíssimo, de madeira lustrosa e velas sujas; Carlos esperou pelo clichê de ver os tecidos balançando até perceber que a janela estava fechada – mais tarde, seria aberta com muita dificuldade pelo filho.
Fui eu quem fiz.
Parabéns, Carlos respondeu, quase surpreso pela afirmação.
Tem mais. Quando quiser, pode ir lá ver.
No final da tarde, após um lanche resumido a (deliciosos) pães de queijo e um café rançoso de sabor endurecido, subiu ao quarto do filho, que havia trocado de roupa: no lugar do macacão vestia uma camiseta branca de mangas curtíssimas, uma frase em inglês vermelho impressa no peito, estilete pendurado nos bolsos da calça e chinelos havaianas verdes. Naqueles trajes tão desesperadamente jovais pareceu-lhe ainda mais velho com os cabelos lisos e brancos caindo sobre as orelhas e os dedos envoltos em manchas escuras e irremediáveis. Falou-lhe de esquadras e galeões, fragatas, batalhas espanholas, da frota mercante dos fenícios e a ferocidade dos saqueadores marítimos, mapas antigos e quase desconhecidos que falavam da costa da América do Sul centenas de anos antes de Colombo ou Cabral. De seus projetos delicados, belíssimos e abandonados; naquele faltava o leme, no outro as velas, um deteriorava-se num balde de plástico mofado, peças esculpidas com cuidado espalhadas pela gigantesca mesa, esperando inúteis a oportunidade de pertencer a mais um navio inconcluso. E havia um entusiasmo legítimo, embora pouco contagiante, em suas frases e histórias, todas invariavelmente desprovidas de conclusões.
Depois que o filho conseguiu abrir a janela do quarto, Carlos percebeu que a irmã mais nova usava um vestido formado por outros e que aquilo não o tornava feio, mas elegante e incomum. No dia seguinte, antes da sessão de slides, conversaria com ela, que se empenharia em mostrar o minúsculo quarto que apelidava de ateliê – a careta desengonçada que ela fazia a cada vez que pronunciava o termo o encantava; o humor autodepreciativo sempre conseguia encontrar nele um admirador. Notaria uma pilha de tecidos, a maioria bem antigos, alguns nitidamente roídos por ratos que ela juraria terem sido exterminados ainda no tempo que o pai e a mãe estiveram vivos. E os cabides, enfiados em todo canto e fresta das estantes e armários, todos servindo de repouso para vestidos longos e solenes. Nos manequins sem cabeça ou braços, levíssimas peças coloridas, tornadas foscas pela janela definitivamente fechada com duas tábuas grossas e sólidas.
Faço os vestidos da minha cabeça, ela diria, depois de um tempo eu desmancho e recosturo de outro jeito.
Quase não existe mais tecido para vender lá na cidade, então eu tenho trabalho o tempo todo fazendo isso, o que é bom.
Exceto aquele, que eu gosto muito e não desmancho.
Nestes momentos, disse-me Carlos, invejo a capacidade quase instintiva das mulheres em identificar as partes componentes de uma roupa. Não soube me dizer se o que adornava a peça preferida da irmã mais nova eram miçangas, estrasses ou finíssimos cristais cuja manipulação desastrada certamente os levaria a destruição. Foi capaz de dizer apenas que ficara impressionado com a assimetria perfeita, o bom gosto dos detalhes, a generosidade sensual da fenda das costas, as alças adornadas por tecidos diversos unidos num padrão delicado de cores. O vestido pendia de um cabide pregado no teto baixo como um troféu, girando lentamente pouco acima da altura dos olhos, e provocava um sorriso suave na irmã mais nova toda vez que o mencionava.
Às vezes, a irmã mais velha vai na cidade e consegue vender um vestido. Ela sempre me elogia.
E ela, que Carlos não via desde o desencontro na estufa, veio chamar à porta do seu quarto aberta, na segunda tarde de sua estadia, enquanto ele tentava se entreter com um livro já lido e esquecido na mala por engano.
Quer saber como eram as coisas aqui antes?
